domingo, 17 de maio de 2009

Sobre o Terreiro do Paço

«A apresentação pública do projecto do Terreiro do Paço é um momento simbólico importante. Hesitei sobre se deveria participar no debate. Tenho a maior consideração, respeito e estima pelo arq. João Biencard Cruz, que me sucedeu na Frente Tejo e que convidara para meu braço-direito; fui eu quem tomou a decisão de pedir ao arq. Bruno Soares - um grande arquitecto e uma pessoa de bem, como Biencard - para continuar o trabalho que estava já a fazer na área. Mas, tudo ponderado, acho que devo falar.O objectivo que definira era que se fizesse um restauro da praça, tendo presente que ela é simultaneamente uma praça real setecentista e um espaço da sociedade burguesa que se lhe seguiu. O caderno de encargos para o projectista era conciliar o aparato com o conforto, mantendo a majestade da função inicial com os usos para os cidadãos e os turistas que a adaptassem à realidade do século XXI.

Os constrangimentos de tempo impostos pelas comemorações do Centenário da República, a necessidade de que não fosse ultrapassado o orçamento e o facto de a criatividade contemporânea não ser manifestamente essencial, levou-me a defender a adjudicação directa, ao contrário de todos os outros projectos da Frente Tejo, que seriam feitos por concurso público internacional.

Essa opção de adjudicação directa ia com as seguintes condições: (i) um grupo multidisciplinar de especialistas nacionais e estrangeiros seria ouvido e acompanharia o trabalho de Bruno Soares, (ii) a sociedade Frente Tejo interviria em diálogo permanente no processo de reflexão e criação do arquitecto, aprovando o anteprojecto; (iii) o debate público seria aberto a seguir; (iv) a sociedade Frente Tejo aprovaria o projecto, após tal debate, com as alterações que se justificassem.

Quando convidei Bruno Soares disse-lhe de forma clara que discordaria totalmente de qualquer projecto que optasse por desrespeitar o conteúdo ideológico e patrimonial da praça; designadamente, desejava que o projecto fosse de restauro quando possível e que o arquitecto se "apagasse" perante o património histórico-cultural existente, revelando a "modéstia" que realidades históricas deste valor exigem a quem delas se ocupa.

Sinto, por isso, que tenho o dever de afirmar que o an-teprojecto divulgado nunca teria sido aprovado por mim para submissão a discussão pública. Não acredito, aliás, que os especialistas que começara a consultar concordassem com a opção. Em primeiro lugar, o projecto afecta parte do núcleo essencial da praça. Refiro-me ao Cais das Colunas, que foi vítima do projecto do túnel do metropolitano, mas que não deveria ser alterado na sua imagem e presença. O Cais das Colunas é uma peça do século XVIII e faz parte da nossa memória colectiva. Era por ali a entrada solene em Lisboa durante séculos e até aos aviões. Não pode por isso ser alterado com a contemporânea criação de um círculo pelo terreiro a dentro. O tema chegou aliás a ser falado (alguém chegou a propor-me que fosse alargada por aterro a praça do lado do rio para facilitar o trânsito!) e fui sempre muito claro quanto a isso: a proporção da praça e os seus elementos definidores não podiam ser alterados.

Em segundo lugar, discordaria completamente da solução acrónica dos traçados em losangos, parece que inspirados em cartas de marear, que destroem o equilíbrio da praça, trazendo-a para um registo cultural inadequado. A praça era um terreiro e como tal deverá manter-se a grande parte central, evidentemente com a utilização de materiais modernos que graficamente exprimam essa realidade histórica, como está aliás proposto e mereceria a minha concordância.

Em terceiro lugar, opor-me-ia a que esses losangos sejam marcados com pedra lioz que ressalta cromaticamente do terreiro e lhe dá um movimento que seria noutro espaço sem esta carga cultural provavelmente uma excelente solução, mas aqui é como "pôr-se em bicos de pés" sobre a imensa dignidade dos quatro hectares da praça. O Barroco é um tempo de movimento, o Terreiro do Paço bem o exemplifica com a ondulação do Cais das Colunas, com as suas fachadas e com os efeitos da luz sobre elas, mas nem todo o movimento é barroco. A estrutura quadricular da praça e dos edifícios, a simetria e o eixo da Rua Augusta estendendo-se visualmente pelo estuário, servem o projecto ideológico do iluminismo. Aqui são desrespeitados em absoluto pelos traçados que sem coerência lhe pretendem acrescentar no século XXI.

Em quarto lugar, recusaria o traçado marcado no terreiro que pretende prolongar a Rua Augusta até ao rio, fazendo intervir um projecto de espaço público moderno e também acrónico em relação à majestade e à proporção existente; e isso com a agravante de que destrói a coerência entre as zonas de conforto e de passeio das arcadas e a zona de aparato da parte central, sem utilidade, e ainda mais sem necessidade, também assim contribuindo para uma cacofonia visual e policromática que é o contrário da modéstia com que se devia enfrentar o expoente de património edificado e ideológico que ali temos.

Dito isto, em relação ao que na Internet pude ver, o resto do anteprojecto parece-me corresponder integralmente a um programa coerente e adequado às funcionalidades de trânsito e de peões, há muito esperado. Reconheço que as características pessoais de Biencard Cruz e de Bruno Soares favorecem que o debate público seja por eles escutado e que soluções apresentadas sejam revistas. Mas se já era difícil cumprir calendário sem pagar preços exorbitantes nas empreitadas se me tivessem deixado trabalhar, depois do tempo perdido tudo se complicou mais. E as eleições autárquicas do Outono serão também um factor de grande pressão.

Por isso apelo para que o calendário político não obrigue a erros que serão depois na prática irreparáveis. O Marquês de Pombal fez obra, não sem antes os seus arquitectos estudarem, ponderarem, apresentarem alternativas, discutirem e com isso criou uma das melhores obras urbanas da Europa setecentista. Não queiramos ganhar--lhe em velocidade, já que dificilmente o venceríamos em qualidade.»

José Miguel Júdice, Público

Cristo Rei: 50 anos a abraçar Lisboa

sábado, 16 de maio de 2009

Imagem de Nossa Senhora de Fátima em Lisboa


Foi um dia intenso para os católicos em particular mas para Lisboa. A imagem de Nossa Senhora de Fátima esteve hoje em Lisboa no âmbito das comemorações do cinquentenário do Cristo Rei.

Esta imagem é a que se encontra normalmente em Fátima e é a 10ª vez que sai do seu local habitual. A referida imagem foi oferecida ao Santuário de Fátima em 1920 e a sua coroa contém a bala com que atentaram contra a vida do Papa João Paulo II no dia 13 de Maio de 1981.

A imagem de Nossa Senhora de Fátima percorreu vários locais da cidade sempre acompanhada por muitos milhares de fiéis e esteve na igreja dos Anjos e na igreja de São Nicolau antes de rumar ao Terreiro do Paço onde se realizou a missa comemorativa.

O Terreiro do Paço encheu para receber mais de duas centenas de milhar de católicos. Foi um sinal muito importante para o país sobre a o papel da Fé nos dias de hoje.

Por fim a procissão no rio Tejo que levou a imagem de Nossa Senhora de Fátima até à outra margem. Centenas de embarcações de recreio acompanharam a lancha da Marinha Portuguesa que transportava a imagem. Foram imagens marcantes.

Foram sentimentos e imagens inesquecíveis para Lisboa.

Parabéns Lisboa!

domingo, 10 de maio de 2009

Propaganda política enganosa

O PS colocou um conjunto de cartazes em muitos bairros históricos de Lisboa, alguns mesmo tapando monumentos (neste caso parece que a câmara não os considera que prejudiquem o enquadramento ou a estética), procurando passar a mensagem de que o PSD impede a câmara de proceder à recuperação dos bairros, alegando que o PSD ameaça chumbar um empréstimo destinado à reabilitação urbana.

Vale a pena analisar a questão com rigor. O PSD viabilizou um empréstimo no âmbito do plano de saneamento financeiro da CML. Foi o Tribunal de Contas quem o chumbou. Também viabilizou um empréstimo para a reabilitação urbana da zona ocidental. O único empréstimo que foi chumbado estava mal fundamentado, pouco preciso e destinava-se, supostamente, a pagar a fornecedores, quando o presidente da câmara afirmava que já tinha resolvido esse problema.

Importa sublinhar que a viabilização do empréstimo referido no cartaz depende apenas (como em todos os casos) da pertinente justificação e identificação concreta da finalidade a que se destina. Resta perceber se o Dr. António Costa pretende a sua viabilização ou antes procura pretextos para se vitimizar, tentando esconder, deste modo, a sua própria incapacidade para gerir a cidade.

Mas é importante ter presente que, no conjunto, as propostas de empréstimos do actual executivo, se aprovadas, significariam o aumento do endividamento da CML em mais de 500 milhões de euros em menos de dois anos. Este comportamento só tem paralelo nos anos da gestão de João Soares, com consequências para as finanças da câmara que ainda hoje são sentidas.

texto publicado no jornal Meia Hora

sábado, 9 de maio de 2009

M 80


Airport - The Motors, 1978

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Conferências do Estoril


Uma iniciativa de grande fôlego da Câmara Municipal de Cascais organizada pela DNA Cascais e pelo Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais. Cascais a marcar a agenda. Parabéns.

Sob o tema "Desafios Globais, Respostas Locais" a conferência reune personalidades como Fernando Henrique Cardoso, antigo Presidente do Brasil, Samir Amin, Director, Fórum do Terceiro Mundo, Yegor Gaidar, Presidente em exercício do Governo da Federação da Rússia em 1992, Mary Robinson, Presidente da Irlanda entre 1990 e 1997 e Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos entre 1997 e 2002, Tony Blair, Primeiro-Ministro Britânico entre 1997 e 2007, Joseph Stiglitz, Prémio Nobel das Ciências Económicas 2001, José Maria Aznar, Presidente do Governo Espanhol entre 1996 e 2004, entre muitas outras.

Consulte aqui o programa.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Sequestro financeiro em Lisboa

O mais recente episódio da actividade camarária em Lisboa diz respeito ao sequestro das verbas para as juntas de freguesia.

A câmara municipal apresentou uma proposta de utilidade e consequências muito discutíveis para contrair um empréstimo de várias dezenas de milhões de euros a poucos meses de eleições. Entre várias questões controversas, foi utilizado o argumento mal justificado da necessidade de pagar dívidas (!) Sim, as mesmas que António Costa tem afirmado que já resolveu…

Por estes motivos a assembleia municipal decidiu prudentemente impedir o aumento do endividamento da câmara municipal e os presidentes das juntas de freguesia são, por inerência, membros da assembleia municipal e nessa medida tomaram, legitimamente, parte na decisão.

A decisão (tal como a proposta) é discutível, mas legítima. O que é inédito e seguramente ultrapassa todos os limites da responsabilidade e da ética democrática é a atitude de reter as verbas que há vários meses são devidas às juntas de freguesia por reacção a uma contrariedade.

As juntas de freguesia de Lisboa desempenham um papel insubstituível na resolução dos problemas do dia-a-dia dos cidadãos, desenvolvendo um trabalho fundamental no apoio social à comunidade. A situação em que foram colocadas pela CML está a colocar em causa o seu funcionamento.

Esperemos que tudo não passe de uma infeliz coincidência e que o incumprimento dos compromissos assumidos pela CML com as juntas de freguesia seja fruto apenas de desatenção. Será um sinal preocupante na capacidade de gestão da câmara, mas seguramente menos grave do que a confirmação da retaliação que prejudicará sobretudo a população e que terá consequências eleitorais.

texto publicado no jornal Meia Hora

M 80


Mercedes 190 E

Sondagem Lisboa

Lisboa. Eurosondagem, 26-28 Abril, N=1025, Tel.

PS: 38,3%; PSD/CDS-PP/PPM/MPT: 31,1%; Cidadãos por Lisboa: 9,6%; CDU:8,0%; BE:6,1%; OBN:6,9%

in "Margens de erro"

terça-feira, 28 de abril de 2009

domingo, 26 de abril de 2009

NunÁlvares Pereira


Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
faz que o ar alto perca
seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
que o Rei Artur te deu.

'Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
ergue a luz da tua espada
para a estrada se ver!

Fernando Pessoa em "A Mensagem"

São Nuno Álvares Pereira


Hoje é um dia de alegria para todos os Portugueses.

A canonização de Nuno Álvares Pereira constitui um gesto que honra uma das figuras mais marcantes da nossa História, uma figura em que os Portugueses se revêem como símbolo de amor ao seu País, de defesa corajosa da independência nacional, de vontade de triunfar mesmo nas horas mais difíceis.

Orgulhamo-nos com a canonização de Nuno Álvares Pereira, pelo que ela representa de reconhecimento do valor exemplar de um português heróico e ilustre.

Um português que soube também ser humilde, o que o levou a retirar-se do gozo das grandezas mundanas em nome da fé que possuía.

Recordo o seu epitáfio: «As suas honras terrenas foram incontáveis, mas voltou-lhes as costas. Foi um grande Príncipe, mas fez-se humilde monge».

De facto, Nuno Álvares Pereira soube voltar as costas às honras terrenas que conquistara através de feitos heróicos.

Mas não voltou as costas ao seu amor por Portugal, pois foi em nome desse amor que o Condestável comandou tropas em defesa da independência de uma nação ameaçada.

O «forte Dom Nuno», como lhe chamou Camões, é um exemplo para todos nós e, muito em particular, para as nossas Forças Armadas.

Congratulo-me pela canonização de Nuno Álvares Pereira e estou certo de que este gesto ficará inscrito na nossa memória colectiva e será motivo de orgulho e de alegria para todos os que amam o nosso País e a sua história.

Mensagem do Presidente da República a propósito da canonização de Nuno Álvares Pereira26 de Abril de 2009

Nuno Álvares Pereira


Para entender melhor essa mensagem perene que a figura de São Nuno de Santa Maria nos oferece, a que fazíamos referência mais acima, convém destacar, de modo muito sumário, alguns aspectos essenciais da sua biografia que, sem dúvida, ajudarão a traçar melhor o perfil espiritual do Santo Condestável.

Nasceu no dia 24 de Junho de 1360, em Cernache do Bom Jardim, filho ilegítimo de D. Álvaro Gonçalves Pereira, que foi Prior do Priorato do Crato, dos célebres Cavaleiros de São João de Jerusalém e de Ilia, por quem Nuno conservaria sempre um terno afecto. A sua infância e a sua adolescência decorreram neste ambiente entre cavalheiresco e profundamente religioso que havia nestes grupos nos reinos do baixo medievo da Europa. Imbuído do ideal de Galaad, um dos cavaleiros da mesa redonda que acompanhavam o mítico Rei Artur, quis permanecer celibatário, mas, para não contrariar o seu pai, veio a casar-se com D.ª Leonor de Alvim, com quem teria três filhos e com quem teve uma vida matrimonial feliz. O casamento teve lugar a 15 de Agosto, festa da Assunção de Maria, de 1376.

Dois dos seus filhos morreram crianças e apenas a terceira, D.ª Beatriz, chegaria à idade adulta, casando-se com D. Afonso, o filho do rei D. João I, a quem Nuno, seu aio, tinha servido sempre com valentia e fidelidade.

O jovem Nuno sobressaiu rapidamente na corte, para a qual foi destinado para o serviço pessoal do rei Fernando desde a adolescência, quando tinha apenas treze anos. A sua nobreza de ânimo, a sua valentia, a lealdade para com o rei e o ideal de pureza que parecia ter-se traçado desde criança, a imitação do casto herói Galaad, chamaram à atenção quer da família real quer dos outros cortesãos.

A morte do rei D. Fernando de Portugal originou um problema dinástico, algo muito frequente nos reinos da Península Ibérica, nos tempos da Reconquista. Alguns cavaleiros portugueses (alguns irmãos de Nuno, inclusivamente) defendiam o direito ao trono de Beatriz, filha do rei Fernando, casada com o rei de Castela, o que provavelmente teria suposto a incorporação da coroa portuguesa no reino de Castela, que se ia configurando – juntamente com o de Aragão – como o reino mais forte da Península Ibérica. Mas outros muitos cavaleiros lusitanos, entre eles Nuno, defendiam o direito ao trono de João, irmão do rei Fernando. Havia também interesses internacionais e não faltaram cavaleiros franceses e ingleses que ajudavam um ou outro lado. Não demorou muito a rebentar uma guerra entre os dois reinos, provocada pelo problema da sucessão dinástica. A guerra em si durou vários anos, com períodos de relativa calma. Em Abril de 1384, as tropas portuguesas (ao serviço de D. João) vencem a fac-ção rival, na batalha de Atoleiros (o que originou, pouco mais tarde, a subida ao trono de João I, que nomearia Nuno como seu Condestável). Um ano mais tarde, no dia 14 de Agosto de 1385 (em vésperas da festa da Assunção de Nossa Senhora), as tropas comandadas por Nuno Álvares Pereira derrotaram os seguidores do rei de Castela, na memorável batalha de Aljubarrota, e, pouco depois, em Valverde (já dentro do reino de Castela), o que fez com que Nuno ganhasse uma grande fama como herói nacional. Ainda que a guerra se tenha prolongado por algum tempo, e inclusivamente tivessem havido escaramuças anos mais tarde, a vitória já estava do lado português. A paz definitiva seria assinada em 1411. Pode ser significativo da fama que Nuno ganhou como herói nacional e como Condestável o facto de que Luís de Camões, o grande poeta português, incluísse uma elogiosa referência ao nosso homem, no canto IV do seu célebre poema épico Os Lusíadas, obra cimeira da literatura portuguesa do Renascimento. Também na vizinha Espanha vários autores dos séculos XVI e XVII (Calderón de la Barca ou Tirso de Molina, entre outros) louvaram a nobreza e a heroicidade do já mítico Condestável.

Mas, pouco mais tarde, a desgraça abateu-se sobre o Condestável. Em 1387, morre a sua esposa, D.ª Leonor de Alvim, que residia no Porto com a filha dos dois. Depois, o ainda jovem Nuno negou-se a contrair novo casamento. A vida de piedade e penitência (que sempre tinha tido) acentua-se sobremaneira e o Condestável, herói de tantas batalhas, famoso guerreiro ao serviço do rei, vai, a pouco e pouco, adquirindo a reputação de homem piedoso e santo.

Há que situar, nestes anos, a sua intervenção decisiva para a construção (entre outros templos e conventos) do convento e da igreja dos carmelitas, em Lisboa, cumprindo assim uma promessa votiva feita a Nossa Senhora. Consta que teve contacto com a Ordem através de um antigo companheiro de armas que se tinha feito carmelita no convento de Moura, D. João Gonçalves, e do Frei Afonso de Alfama, Vigário da Ordem em Portugal, com quem parece que tinha grande confiança e amizade. Foi escolhido, para localização do dito convento, um dos lugares mais altos de Lisboa. As obras duraram mais de oito anos. Os carmelitas, vindos do convento de Moura, instalaram-se no celebérrimo “Carmo” de Lisboa no dia 15 de Agosto (mais uma vez) de 1397, onde permaneceram até 1755, data em que o templo foi praticamente destruído pelo terramoto de Lisboa.

Em 1415, Nuno viria ainda a ter tempo de participar numa nova campanha portuguesa, desta vez para além do estreito de Gibraltar, em Ceuta, comandando e contribuindo com a sua experiência militar na expedição portuguesa que se dirigia para o referido lugar do Norte de África. Nuno, com 55 anos, sentia-se já cansado. Pouco depois aconteceu a morte da sua filha, o que provavelmente acelerou a sua decisão de se afastar do mundo e de ter uma vida totalmente entregue à penitência, à piedade e à oração.

Deste modo, em Agosto de 1423, o Condestável, figura admirada e de grande prestígio, decide, diante do espanto geral, ingressar no Convento do Carmo, que ele mesmo tinha fundado, e levar uma vida de total penitência e austeridade, como irmão donato. No dia 15 de Agosto, festa da Assunção de Nossa Senhora e data à que parece que a vida de Nuno estava intimamente ligada, vestiu o hábito Carmelita, tomando o nome de Frei Nuno de Santa Maria. Apesar das pressões de toda a ordem, recusou privilégios ou mitigações da austeridade conventual. Por intervenção de D. Duarte (filho de João I, o rei a quem Nuno fielmente tinha servido durante anos), convenceu-se, ao menos, que não fosse para um convento longínquo, como era seu desejo, para evitar visitas e homenagens que iam contra a sua vontade de total penitência e humildade. Também conseguiu o príncipe que Nuno renunciasse ao seu desejo de mendigar para o convento pelas ruas de Lisboa, como faziam os irmãos donatos.

Prova da sinceridade e da firmeza da sua vontade foi o facto de que sempre recusou ser chamado doutra maneira que não “Frei Nuno de Santa Maria”, recusando qualquer tipo de título de nobreza. Mais ainda, quando o príncipe D. Duarte quis que conservasse o título de Condestável, Nuno respondeu com humildade, mas com firmeza: o Condestável morreu e está enterrado num santuário…

Depois de oito anos de vida de penitência e de grande austeridade, Frei Nuno de Santa Maria morreu em Lisboa, no dia 1 de Abril de 1431. O seu funeral constituiu uma enorme manifestação de dor, quer por parte da nobreza e da família real (que tinham uma grande dívida de gratidão para com aquele nobre cavaleiro vencedor no campo da batalha), quer por parte dos carmelitas e de tantos devotos, que viram nele um modelo de penitência, de humildade e de desprezo das galas e honras deste mundo.


Sondagem Lisboa

Autárquicas, Lisboa. Aximage, 21-23 Abril, N=600, Tel.

PS:36,1%PSD/CDS-PP/PPM/29,6%CDU:8,4%Cidadãos por Lisboa: 7,1%BE:3,8%

Aqui. A notícia não diz quantos dos restantes 15% são votos brancos, nulos, noutros partidos ou indecisos.

in Margens de Erro