domingo, 26 de abril de 2009

Nuno Álvares Pereira


Para entender melhor essa mensagem perene que a figura de São Nuno de Santa Maria nos oferece, a que fazíamos referência mais acima, convém destacar, de modo muito sumário, alguns aspectos essenciais da sua biografia que, sem dúvida, ajudarão a traçar melhor o perfil espiritual do Santo Condestável.

Nasceu no dia 24 de Junho de 1360, em Cernache do Bom Jardim, filho ilegítimo de D. Álvaro Gonçalves Pereira, que foi Prior do Priorato do Crato, dos célebres Cavaleiros de São João de Jerusalém e de Ilia, por quem Nuno conservaria sempre um terno afecto. A sua infância e a sua adolescência decorreram neste ambiente entre cavalheiresco e profundamente religioso que havia nestes grupos nos reinos do baixo medievo da Europa. Imbuído do ideal de Galaad, um dos cavaleiros da mesa redonda que acompanhavam o mítico Rei Artur, quis permanecer celibatário, mas, para não contrariar o seu pai, veio a casar-se com D.ª Leonor de Alvim, com quem teria três filhos e com quem teve uma vida matrimonial feliz. O casamento teve lugar a 15 de Agosto, festa da Assunção de Maria, de 1376.

Dois dos seus filhos morreram crianças e apenas a terceira, D.ª Beatriz, chegaria à idade adulta, casando-se com D. Afonso, o filho do rei D. João I, a quem Nuno, seu aio, tinha servido sempre com valentia e fidelidade.

O jovem Nuno sobressaiu rapidamente na corte, para a qual foi destinado para o serviço pessoal do rei Fernando desde a adolescência, quando tinha apenas treze anos. A sua nobreza de ânimo, a sua valentia, a lealdade para com o rei e o ideal de pureza que parecia ter-se traçado desde criança, a imitação do casto herói Galaad, chamaram à atenção quer da família real quer dos outros cortesãos.

A morte do rei D. Fernando de Portugal originou um problema dinástico, algo muito frequente nos reinos da Península Ibérica, nos tempos da Reconquista. Alguns cavaleiros portugueses (alguns irmãos de Nuno, inclusivamente) defendiam o direito ao trono de Beatriz, filha do rei Fernando, casada com o rei de Castela, o que provavelmente teria suposto a incorporação da coroa portuguesa no reino de Castela, que se ia configurando – juntamente com o de Aragão – como o reino mais forte da Península Ibérica. Mas outros muitos cavaleiros lusitanos, entre eles Nuno, defendiam o direito ao trono de João, irmão do rei Fernando. Havia também interesses internacionais e não faltaram cavaleiros franceses e ingleses que ajudavam um ou outro lado. Não demorou muito a rebentar uma guerra entre os dois reinos, provocada pelo problema da sucessão dinástica. A guerra em si durou vários anos, com períodos de relativa calma. Em Abril de 1384, as tropas portuguesas (ao serviço de D. João) vencem a fac-ção rival, na batalha de Atoleiros (o que originou, pouco mais tarde, a subida ao trono de João I, que nomearia Nuno como seu Condestável). Um ano mais tarde, no dia 14 de Agosto de 1385 (em vésperas da festa da Assunção de Nossa Senhora), as tropas comandadas por Nuno Álvares Pereira derrotaram os seguidores do rei de Castela, na memorável batalha de Aljubarrota, e, pouco depois, em Valverde (já dentro do reino de Castela), o que fez com que Nuno ganhasse uma grande fama como herói nacional. Ainda que a guerra se tenha prolongado por algum tempo, e inclusivamente tivessem havido escaramuças anos mais tarde, a vitória já estava do lado português. A paz definitiva seria assinada em 1411. Pode ser significativo da fama que Nuno ganhou como herói nacional e como Condestável o facto de que Luís de Camões, o grande poeta português, incluísse uma elogiosa referência ao nosso homem, no canto IV do seu célebre poema épico Os Lusíadas, obra cimeira da literatura portuguesa do Renascimento. Também na vizinha Espanha vários autores dos séculos XVI e XVII (Calderón de la Barca ou Tirso de Molina, entre outros) louvaram a nobreza e a heroicidade do já mítico Condestável.

Mas, pouco mais tarde, a desgraça abateu-se sobre o Condestável. Em 1387, morre a sua esposa, D.ª Leonor de Alvim, que residia no Porto com a filha dos dois. Depois, o ainda jovem Nuno negou-se a contrair novo casamento. A vida de piedade e penitência (que sempre tinha tido) acentua-se sobremaneira e o Condestável, herói de tantas batalhas, famoso guerreiro ao serviço do rei, vai, a pouco e pouco, adquirindo a reputação de homem piedoso e santo.

Há que situar, nestes anos, a sua intervenção decisiva para a construção (entre outros templos e conventos) do convento e da igreja dos carmelitas, em Lisboa, cumprindo assim uma promessa votiva feita a Nossa Senhora. Consta que teve contacto com a Ordem através de um antigo companheiro de armas que se tinha feito carmelita no convento de Moura, D. João Gonçalves, e do Frei Afonso de Alfama, Vigário da Ordem em Portugal, com quem parece que tinha grande confiança e amizade. Foi escolhido, para localização do dito convento, um dos lugares mais altos de Lisboa. As obras duraram mais de oito anos. Os carmelitas, vindos do convento de Moura, instalaram-se no celebérrimo “Carmo” de Lisboa no dia 15 de Agosto (mais uma vez) de 1397, onde permaneceram até 1755, data em que o templo foi praticamente destruído pelo terramoto de Lisboa.

Em 1415, Nuno viria ainda a ter tempo de participar numa nova campanha portuguesa, desta vez para além do estreito de Gibraltar, em Ceuta, comandando e contribuindo com a sua experiência militar na expedição portuguesa que se dirigia para o referido lugar do Norte de África. Nuno, com 55 anos, sentia-se já cansado. Pouco depois aconteceu a morte da sua filha, o que provavelmente acelerou a sua decisão de se afastar do mundo e de ter uma vida totalmente entregue à penitência, à piedade e à oração.

Deste modo, em Agosto de 1423, o Condestável, figura admirada e de grande prestígio, decide, diante do espanto geral, ingressar no Convento do Carmo, que ele mesmo tinha fundado, e levar uma vida de total penitência e austeridade, como irmão donato. No dia 15 de Agosto, festa da Assunção de Nossa Senhora e data à que parece que a vida de Nuno estava intimamente ligada, vestiu o hábito Carmelita, tomando o nome de Frei Nuno de Santa Maria. Apesar das pressões de toda a ordem, recusou privilégios ou mitigações da austeridade conventual. Por intervenção de D. Duarte (filho de João I, o rei a quem Nuno fielmente tinha servido durante anos), convenceu-se, ao menos, que não fosse para um convento longínquo, como era seu desejo, para evitar visitas e homenagens que iam contra a sua vontade de total penitência e humildade. Também conseguiu o príncipe que Nuno renunciasse ao seu desejo de mendigar para o convento pelas ruas de Lisboa, como faziam os irmãos donatos.

Prova da sinceridade e da firmeza da sua vontade foi o facto de que sempre recusou ser chamado doutra maneira que não “Frei Nuno de Santa Maria”, recusando qualquer tipo de título de nobreza. Mais ainda, quando o príncipe D. Duarte quis que conservasse o título de Condestável, Nuno respondeu com humildade, mas com firmeza: o Condestável morreu e está enterrado num santuário…

Depois de oito anos de vida de penitência e de grande austeridade, Frei Nuno de Santa Maria morreu em Lisboa, no dia 1 de Abril de 1431. O seu funeral constituiu uma enorme manifestação de dor, quer por parte da nobreza e da família real (que tinham uma grande dívida de gratidão para com aquele nobre cavaleiro vencedor no campo da batalha), quer por parte dos carmelitas e de tantos devotos, que viram nele um modelo de penitência, de humildade e de desprezo das galas e honras deste mundo.


Sondagem Lisboa

Autárquicas, Lisboa. Aximage, 21-23 Abril, N=600, Tel.

PS:36,1%PSD/CDS-PP/PPM/29,6%CDU:8,4%Cidadãos por Lisboa: 7,1%BE:3,8%

Aqui. A notícia não diz quantos dos restantes 15% são votos brancos, nulos, noutros partidos ou indecisos.

in Margens de Erro

sábado, 25 de abril de 2009

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O túnel que faz falta


O túnel do marquês completa no próximo dia 25 de Abril dois anos de funcionamento. Hoje é unânime entre os lisboetas e quem utiliza aquela infra-estrutura que foi um investimento adequado e que melhorou a circulação do tráfego automóvel.

Passados dois anos, ao contrário do que foi vaticinado (e quase desejado por alguns), o túnel demonstrou ser também seguro. Hoje soam a patéticos aqueles avisos em jeito de ameaça para que não se excedesse os 30 km/h sob pena de elevada perigosidade.

Com a distância de dois anos vale a pena ainda recordar que os lisboetas foram privados de poder usufruir mais cedo do túnel do marquês devido à paragem das obras provocada pela obsessão do vereador Sá Fernandes que serviu apenas para atrasar a obra, prejudicar a cidade e os lisboetas. Um atraso de quase um ano que custou, além do mais, cerca de 4 milhões de euros aos lisboetas.

Mas túnel do marquês não ficou completo. Devido à necessidade de obras no túnel do metro, a saída para a Avenida António Augusto de Aguiar não foi ainda concluída. As obras da responsabilidade do metropolitano de Lisboa estão terminadas há mais de um ano. As obras em falta da responsabilidade da câmara municipal já poderiam ter avançado e até terminado.

Por teimosia, por embirração, por não querer dar razão a quem teve a iniciativa de construir o túnel do marquês, a câmara municipal de Lisboa não promove a conclusão da obra, privando os lisboetas das suas vantagens.
São os mesmos que criticavam o próprio túnel e que se veio a comprovar não terem razão que agora, uma vez mais, colocam a táctica partidária à frente do interesse da cidade e dos lisboetas, privando-os de usufruir em pleno do túnel do marquês.


texto publicado no jornal Meia Hora

terça-feira, 21 de abril de 2009

Quercus formaliza queixa junto da Comissão Europeia sobre ponte Chelas-Barreiro

A Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza enviou hoje, dia 20 de Abril, à Comissão Europeia uma queixa formal por considerar que o Governo Português estará a incorrer em situação de incumprimento de diversa legislação comunitária na área do ambiente, a respeito da conbstrução da Terceira Travessia do Tejo.

A Quercus entende que "o projecto agora em causa, sendo que apenas será efectivado após 2012, não deixa de colocar em causa o cumprimento de futuras metas de emissão de gases com efeitos de estufa, face às dificuldades já identificadas por agora e dada a insistência na construção de mais rodovias e defendem que “a Comissão Europeia deve equacionar desde já medidas imediatas e cautelares para corrigir as deficiências identificada."


Uma boa notícia!

O texto da queixa pode ser consultado na integra aqui

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Insustentável

Durante mais quanto tempo vai resistir o país com um primeiro ministro sobre quem são lançadas recorrentemente suspeitas de corrupção? Acusações gravadas e publicadas, condutas mal explicadas, justificações omitidas.

E internacionalmente? como será visto um país dirigido por alguém que está envolvido num processo de investigação de corrupção pelas autoridades inglesas?

Por mais quanto tempo suporta Portugal esta situação?

quinta-feira, 16 de abril de 2009

A esquerda pela negativa

Um grupo de cidadãos “de esquerda” lançou um apelo para a união da esquerda nas próximas eleições autárquicas na capital. Este pedido aparece sustentado pelos piores motivos: “impedir o regresso da direita ao poder”. Não é em prol de um projecto comum porque não existe. Não é a defesa da continuação do trabalho realizado porque é quase inexistente. Este é o verdadeiro problema: desta vez, a dita esquerda não provou servir os interesses de Lisboa.

O primeiro responsável pela dificuldade de acordo entre a esquerda é, curiosamente, o seu principal beneficiado: António Costa.

O actual presidente da câmara demonstrou não ser capaz de governar a cidade de forma adequada. Na verdade os lisboetas continuam hoje sem saber se têm um presidente da câmara ou um ministro à frente da edilidade.

António Costa nunca apresentou um projecto coerente para o desenvolvimento da cidade. Não tem obra para apresentar. A esquerda em Lisboa não tem hoje um trabalho em que se possa rever e defender.

António Costa não foi capaz de construir a convergência da esquerda. Desprezou o PCP que tem demonstrado uma atitude coerente, sustentada e previsível e fez o que de pior se pode fazer para comprometer a confiança de um partido ao “aliciar” o seu único eleito à revelia da respectiva estrutura partidária como foi o caso de Sá Fernandes eleito pelo Bloco de Esquerda e que se “passou” para o PS.

Agora, António Costa bem pode arrepender-se mas parece já ser tarde para a união da esquerda. E mesmo que se venha a concretizar será pelos piores motivos: apenas tentar evitar a vitória da direita, porque pela positiva não restam quaisquer motivos. É o poder pelo poder. Desesperadamente.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Os quiosques de Lisboa


Uma boa ideia. Os quiosques no espaço público, em jardins ou praças desempenham um papel importante na criação de condições de atractividade dos cidadãos para a frequência desses espaços. Quando estetica e funcionalmente integrados, animam e qualificam os meios onde se inserem.

Mas a atribuição dos quiosques tem de ser totalmente transparente para que não se levantem dúvidas. O modelo de funcionamento não pode ser desvirtuado e convém que seja sustentado para que não fechem tão depressa como abrem...

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Lisboa no reino da propaganda

Tendo iniciado o actual mandato com o compromisso de pôr as contas em dia e a casa em ordem, António Costa rapidamente esqueceu essas promessas, desistiu e cedeu à tentação de prometer grandes obras, optando pela propaganda em detrimento da intervenção.

Actualmente a Câmara Municipal de Lisboa está a gastar vários milhões de euros numa campanha de propaganda sobre higiene urbana. Milhões de uma câmara que se dizia quase na falência. Milhões quando ainda há semanas atrás se reivindicava um empréstimo para pagar dívidas. Demonstra-se agora que não eram necessários. Ou seriam, mas talvez para mais campanhas de propaganda.

A campanha de propaganda sobre higiene urbana até poderia ser pertinente. Dir-se-ia até que os problemas de falta de higiene verificados um pouco por toda a cidade na falta de limpeza das ruas, nos graffiti por todo o lado, nos cartazes indevidamente colados nas paredes, nos autocolantes colados em candeeiros, ou no lixo acumulado sistematicamente junto aos ecopontos reclamam uma atitude, mas seguramente muito mais do que mera propaganda.

Verificou-se em Lisboa alguma modificação no sistema de recolha de lixo? A recolha selectiva teve alguma transformação significativa? Os padrões de limpeza das ruas sofreram alteração? Existe algum novo regulamento para o sistema de higiene urbana? Seriam bons pretextos para investir numa campanha de sensibilização dos cidadãos. Novas práticas poderiam convidar os munícipes a comungar desse esforço renovado. Mas não. Só propaganda! Propaganda que assenta num significativo encargo financeiro para o municipio quando poderia ser suportada em patrocínios e apoios com esforço e alguma imaginação.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

É para levar a sério?

Há cerca de um mês António Costa atacou o seu sucessor no ministério da administração interna criticando a política de segurança em Lisboa. Na ocasião foi muito oportuno pois permitiu alijar responsabilidades sobre um problema de Lisboa, mas na realidade foi mais um sinal da permanente confusão de António Costa ministro ou António Costa presidente da câmara.

Agora o presidente da câmara de Lisboa critica a lei das finanças locais que entrou em vigor há pouco mais de dois anos. Mas o que é extraordinário é que esta lei é da autoria do então ministro António Costa. Sim, de facto é confuso: o ministro António Costa aprova uma lei que o presidente da câmara António Costa critica. Confuso? É que dois anos depois de ter sido eleito presidente da Câmara Municipal de Lisboa parece não ter percebido que já não é ministro, já não é oposição. Agora é presidente.

Mas António Costa agora tem razão. Esta lei das finanças locais é desadequada para os municípios mais populosos e é particularmente gravosa para Lisboa enquanto capital pois não considera os chamados custos da capitalidade tais como a grande concentração de organismos públicos, a duplicação diária de população em virtude do desequilíbrio entre habitantes e população flutuante (o dobro) ou obrigação de assegurar infra-estruturas e serviços para este universo.

O ministro António Costa foi atempadamente avisado dos erros da lei que teimosamente quis aprovar. Pode até, o presidente António Costa, ter chegado à mesma conclusão, mas aconselharia o pudor que fosse mais discreto. De outra forma, dificilmente alguém levará a sério o Dr. António Costa.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Sentido de Estado ou bom senso?

O mandato do actual Provedor de Justiça terminou há cerca de oito meses atrás. Os dois partidos obrigatórios para concretizar a substituição através da eleição com uma maioria de dois terços não conseguiram faze-lo. Uma vez mais a imagem dos partidos políticos fica enfraquecida. Uma vez mais a imagem da Assembleia da República sai fragilizada.

Compreensivelmente, após oito meses de espera para ser substituído, o ainda Provedor de Justiça, veio manifestar a sua incomodidade perante a situação. Nascimento Rodrigues foi claro na justificação da situação a que se chegou: o partido maioritário quer também ocupar este cargo numa ânsia de hegemonia em relação a todos os cargos públicos.

A credibilidade do actual Provedor de Justiça impôs um peso às suas palavras que deixou os dirigentes do partido socialista num estado de nervosismo que contagiou o próprio primeiro-ministro. Só isso justifica a total falta de sentido de estado e a irresponsabilidade das reacções que se seguiram: o partido socialista atirou para a praça pública nomes propostos para ocuparem o cargo em questão na tentativa de criar uma cortina de fumo perante o verdadeiro problema tão sabiamente apontado por Nascimento Rodrigues.

A escolha do Provedor de Justiça depende do acordo entre os dois maiores partidos. A dignidade do cargo e o sentido de estado deveriam manter as negociações necessárias reservadas. Quem vem para a praça pública atirar nomes não quer resolver problemas, antes manifesta uma total ausência de sentido de estado. Quem persiste teimosamente em querer decidir todas as nomeações de cargos públicos, sacrificando o vital equilíbrio democrático, revela falta de bom senso.


texto publicado no jornal Meia Hora

sábado, 21 de março de 2009

quinta-feira, 19 de março de 2009

A água não se fabrica


Decorre esta semana em Istambul na Turquia o Vº Fórum Mundial da Água para debater o problema da escassez de água.

Prevê-se que dentro de 20 anos, cerca de 2/3 da população mundial sofra com a escassez de água. Os próximos conflitos e guerras no mundo serão em função do controle de rios e albufeiras e da distribuição da água. Também em Portugal, a permanência dos actuais padrões de consumo de água poderá provocar a escassez de água.

Quem vive em locais onde basta abrir a torneira para obter água potável, esquece que essa água sofreu um processo de tratamento e transporte dispendioso.

A Matriz da Água de Lisboa elaborada pela Agência Lisboa E-Nova em 2006, reúne informações surpreendentes: O consumo anual de água é de 74,5 milhões de m3. As perdas são de 19,5 milhões de m3. Cerca de 42% do consumo de água corresponde a usos domésticos. Destes, 49% é gasto em duches e 22% em autoclismos. A câmara consome 7 milhões de m3 de água para regas e lavagens de ruas e cerca de 59 milhões de m3 de águas residuais tratadas não têm qualquer aproveitamento.

É urgente mudar comportamentos no uso da água. O gesto de cada um conta.

É necessário continuar a investir na diminuição das perdas ainda significativas em Lisboa. Por outro lado, é urgente aplicar uma política integrada para o uso racional da água, através da generalização de sistemas de rega automática racional, da adopção de plantas com baixas exigências hídricas nos jardins, mas também pelo aproveitamento da água residual tratada para a rega e lavagem de ruas. Lisboa pode e deve dar o exemplo no uso sustentável da água.

A água não se fabrica. Urge promover o uso racional e sustentável de um recurso tão valioso como é a água.


texto publicado no jornal Meia Hora

quarta-feira, 18 de março de 2009

O cúmulo da demagogia

Em plena campanha (não estará desde o início do seu mandato?), António Costa apresentou ontem as medidas para o simplis versão 2009 como é noticiado aqui. De entre as 38 medidas anunciadas (os anúncios são a especialidade de António Costa) surge a medida "a minha rua". Uma ideia interessante copiada de vários exemplos em cidades europeias (não há qualquer inconveniente em copiar boas ideias).

Esta iniciativa pretende criar mais um meio para que os lisboetas possam comunicar pequenos problemas no funcionamento da cidade (iluminação, calçadas, lixo, etc.). Tudo apresentado como novo. Mas não é! Recordam-se do serviço Lx Alerta? Nem mais! Ou melhor, aparentemente a menos. O serviço Lx Alerta foi criado durante o mandato de Santana Lopes para facilitar a comunicação de problemas da cidade, faltava-lhe a componente interactiva através da plataforma agora introduzida. O Lx Alerta foi dotado de meios próprios ou partilhados de forma a responder com maior rapidez às solicitações. Foi uma iniciativa que resultou muito bem com uma avaliação e monitorização que comprovam o sucesso. Depois, já no mandato de Carmona Rodrigues, procurei, com base na experiência recolhida, constituir, no âmbito do Lx Alerta, as "brigadas de intervenção rápida" de forma a optimizar o serviço. Os trabalhos preparatórios ficaram concluídos e na posse dos serviços. Agora tenta apagar-se o que existe e aparece este anúncio sem cuidar de adequar a capacidade de resposta às novas solicitações. É por isso uma iniciativa de fachada porque muito mais importante que poder comunicar um problema num mapa na internet, é ver a questão resolvida em tempo útil.

Curiosamente, esta medida é anunciada para entrar em funcionamento apenas em Setembro... Um mês antes das eleições.... Dá vontade de dizer: "quem vier que feche a porta"! António Costa anuncia, até põe em funcionamento a parte fácil que é receber queixas, mas depois, a sua resolução ficará para quem vier a seguir. A dificuldade está em, com os meios limitados disponíveis, conseguir dar resposta com a celeridade prometida aos problemas colocados. Mas isso ficará para quem vier a seguir. Por agora fica apenas a criação de expectativas. Assim é fácil!